7 lições que aprendi trabalhando nos empregos errados

Entrar no mercado de trabalho nunca é fácil. Você tenta de tudo. Pede indicações para familiares, amigos e conhecidos. Cadastra currículos em sites ou os entrega pessoalmente nas empresas. Se desespera.

E quando não se tem experiência, então? Eu, de certa forma, tive sorte por ter ao meu lado pessoas que me ajudaram e incentivaram até eu conseguir meu primeiro estágio, aos 16 anos de idade, depois de tanto insistir e visitar a empresa semanalmente.

Desde o meu primeiro emprego eu precisei lutar tanto para me adaptar, para me encaixar nos padrões que as empresas impunham, que algo não parecia certo. Mas eu precisava do dinheiro, então, lá fui eu, alegremente, rumo à jornada do crescimento profissional.

Iniciada minha carreira, passei dez anos da minha vida sendo sugada cada vez mais fundo para esse sistema de trabalho de 8 horas diárias (ou mais, para compensar o sábado, né?!), trabalhando em empresas relativamente grandes e conhecidas na minha cidade natal, Tubarão (SC).

Dez anos tentando, sem muito sucesso, me encaixar. Foi quando eu percebi duas coisas:

1) Eu estava sendo uma completa imbecil tentando trabalhar em empregos que não combinavam comigo.

2) Não eram os empregos que eram errados para mim: eu que era errada para aqueles empregos.

Não que houvesse/haja algum tipo de problema comigo. O “problema” é que eu nunca me encaixei nas normas e padrões exigidos pelas empresas onde trabalhei. Em todos meus trabalhos anteriores vivi uma constante luta contra meu eu interior, com quem eu realmente sou e com o que gosto ou não de fazer.

Não gosto de trabalhos monótonos, portanto, preencher planilhas, por exemplo, era um sacrifício para mim. Odeio acordar cedo e precisava me torturar ao sair da cama às 6:30 da manhã todos os dias. Detesto passar maquiagem e trabalhava numa empresa onde não se maquiar era desleixo. Não gosto de ficar presa à um horário fixo e ter que ajustar minha vida à um trabalho ao invés do contrário — e eu trabalhava em empresas que tinham pouquíssima ou nenhuma flexibilidade. Eu lutava, internamente, para me encaixar. TODO. SANTO. DIA.

Hoje, como freelancer e fotógrafa, vejo que nos últimos anos vivi como se tentasse encaixar um círculo num triângulo, tentando lutar contra todos os meus instintos e seguindo o caminho indicado pelas convenções sociais, o caminho seguido pela grande maioria porque alguém lhes disse ser o correto. Essa vivência me ensinou algumas lições importantes que gostaria de saber antes mesmo de ter iniciado no mercado de trabalho e que compartilho agora com vocês.

1 – Não se sacrifique pelo seu trabalho

Seu trabalho não é mais importante que sua vida pessoal, sua família ou sua saúde. Ao longo de minha curta carreira entre empresas percebi que muitas pessoas (e até eu em um certo momento) davam demais para as empresas onde trabalhavam sem ter o devido reconhecimento.

Muitas vezes, quem é reconhecido, na verdade, é quem puxa mais o saco do chefe. Você faz horas extras, trabalha em horário de almoço ou em finais de semana, mas quando precisa de uma única folga a resposta é sempre um sonoro “não”. Quantas vezes você foi para o trabalho doente ao invés de pegar um atestado médico?

Me arrisco dizer que nunca vi alguém ser valorizado por se sacrificar pela empresa. Eu, por exemplo, nos últimos dez anos peguei atestado médico apenas duas vezes, em contrapartida, trabalhei várias vezes doente, com dores e querendo estar em casa. Nunca ouvi um “muito obrigado” por isso ou recebi ao menos um tapinha nas costas. A verdade é que ninguém se importa muito com você no ambiente empresarial — resultados são mais importantes que pessoas. Se você ficar deprimido, cansado ou doente, saiba que o problema é seu. Afinal, a empresa já faz a parte dela lhe oferecendo o plano de saúde, não é mesmo?!

2 – Este não é o último emprego do mundo

Por mais que a crise esteja aí tentando lhe dizer o contrário, esse não vai ser seu último emprego e talvez não seja nem mesmo o melhor. A única forma de descobrir isso é dar a cara pra bater e procurar outras oportunidades. Eu, por exemplo, trabalhava em uma das maiores e “melhores” empresas da região. Meus parentes enchiam a boca para dizer que eu trabalhava lá. Esse emprego, entretanto, que consumia mais de dez horas do meu dia, me pagava bem, mas não compensava o sofrimento. Minha vida estava um caos, eu brigava com meus pais, com meu namorado, chorava antes e depois de ir para o trabalho. Eu estava completamente desgastada. A vinheta do Fantástico, que indicava o final do domingo e o início de uma nova semana, era um pesadelo.

Apesar de tudo, pensar em sair era difícil, afinal, todos estavam tão orgulhosos por eu trabalhar lá, eu tinha minhas contas, era meu primeiro emprego e não sabia como seria se saísse. E por mais ridículo que pareça, viver nesse sofrimento, na época, parecia melhor do que arriscar sair de lá.

Quando finalmente consegui outro emprego, que não era uma maravilha e também me desgastou demais, percebi que aquela mudança não tinha sido o fim do mundo. E quando senti que era hora de partir para meu terceiro emprego, não foi mais tão difícil quanto havia sido da primeira vez. Eu sabia que se não desse certo, daria um jeito e arrumaria outra coisa até encontrar algo em que eu realmente “funcionasse“.

3 – Não existe sorte — só existe você e sua determinação

Seja qual for o seu objetivo — sair de um emprego ou ganhar uma promoção, por exemplo —, não conte com a sorte: ela raramente vai bater na sua porta. Aconteceu comigo uma vez em dez anos e foi o que me possibilitou ser freelancer hoje, mas não dá para contar com isso.

Certa vez, uma colega de trabalho, enquanto conversávamos sobre eu estar indo para meu terceiro emprego em outra empresa, comentou: “Nossa, mas como você tem sorte! Tudo o que você quer, consegue!”. Foi um comentário que me desagradou bastante, mas não falei nada pra ela. Eu não tive sorte. Todos os empregos que consegui foram porque fui atrás. Eu não estava contente em um, então lutava até conseguir outro em que pudesse tentar a loteria.

Quando colocava na cabeça que queria fazer algo, eu tentava até conseguir. Eu não seria fotógrafa hoje se tivesse desistido logo no primeiro ano quando nada dava certo e eu nem sabia o que faria direito, por exemplo.

Raramente as coisas caem em nosso colo depois que viramos adultos. A sua vida é construída sobre as oportunidades que você cria. É você mesmo quem constrói os pilares.

As oportunidades “aparecem” ao longo do caminho que você trilha com suas próprias pernas. A sorte pode fazer um ajuste na bússola aqui e outro ali, mas todo o resto é pura determinação e persistência.

4 – O dinheiro é uma bosta e realmente não traz felicidade

Eu ganhava relativamente bem na primeira empresa onde trabalhei, tinha um salario ótimo para uma pessoa solteira, que não tinha muitos gastos e morava com os pais. Em compensação, eu me estressava muito. Quando mudei para a segunda empresa onde trabalhei reduzi minha renda pela metade e, quando mudei para a terceira, reduzi mais 20%.

Antes de sair do meu primeiro emprego, entretanto, o que mais pesou foi o dinheiro. Na verdade não o dinheiro em si, mas as contas que tinha. O problema do dinheiro é que quanto mais você tem, mais você gasta e mais você fica preso à ele, mais você precisa dele. É um ciclo vicioso, mas você pode por um fim à isso. Quando decidi ganhar menos em outro emprego parei de gastar com coisas estúpidas que não precisava. Passei a comprar apenas o que realmente importava — e olha que eu nem abri mão do apartamento e do carro e nesse meio tempo ainda saí da casa de meus pais.

Ganhar menos e trabalhar apenas 20 horas semanais me possibilitou ter muito mais qualidade de vida e isso foi extremamente recompensador. Pude cuidar mais de mim mesma, me exercitar, sair durante o dia em horários onde antes eu estaria confinada em um escritório, estudar, passar mais tempo com minha família, cuidar da minha alimentação, enfim, fazer tudo que eu queria e não tinha tempo nem ânimo.

5 – Você não é obrigado a nada — muito menos a trabalhar nos horários “convencionais”

Eu acho um absurdo que haja tanta mudança, tanta tecnologia no mundo, e as empresas ainda se recusem a aceitar que um trabalho operacional pode ser feito de qualquer lugar, desde que se mantenham os padrões de qualidade. Ninguém precisa, necessariamente, estar na FIRMA batendo ponto para entregar suas demandas. Por que ainda são poucas as empresas que aceitam o trabalho remoto?

O mais absurdo de tudo é que as empresas insistem em te manter trancado em um escritório durante 8-9 horas sendo que pesquisas comprovam que um empregado trabalha, em média, apenas de 3 a 4 horas dessas 8.

E isso é verdade: no meu primeiro emprego, fiz as contas. Apliquei a Técnica de Pomodoro e puff! Em 7 Pomodoros (frações de tempo de 25 minutos) eu havia concluído tudo que tinha para fazer naquele dia e até mesmo o que estava atrasado. Passei o resto do dia oferecendo ajuda aos outros, navegando na internet e, claro, esperando a hora de ir embora, como todo bom trabalhador que cumpre a jornada de 8 ou 9 horas.

A questão é que, se você não compactua com esse modelo de trabalho, não é obrigados a aceitá-lo. Estamos livres para procurar um emprego que nos ofereça flexibilidade — se este for o objetivo. Entretanto, se este tipo de rotina funciona para você, continue.

6 – Não se permita ser diminuído. Não aceite qualquer tipo de assédio — seja ele moral, sexual ou racial

Não permita, jamais, que cometam qualquer tipo de assédio contra você. Jamais. Seja a empresa que for, não se submeta à isso, não desça tão baixo a ponto de acatar qualquer tipo de assédio que seja.

Foi muito difícil trabalhar em um de meus empregos devido ao alto nível de machismo que existia por lá. Era uma cultura que parecia estar bem consolidada. O presidente elogiava as pernas das funcionarias quando as mesmas iam de saias. Os homens faziam listas das mulheres mais bonitas da empresa. Todas as mulheres eram tratadas como objetos e eu testemunhei vários comentários nojentos.

Aliás, fui assediada por um colega de trabalho que sabia que eu estava noiva e inclusive, havia me conhecido num churrasco da empresa em que ele estava presente. Quando decidi apresentar a situação ao meu chefe, sabe o que ele disse? Que eu era bonita e havia sido simpática, por isso ele tomou esta liberdade. Eu me senti a mosca do cocô do cavalo. Como? Como pode? EU tinha culpa por ele ter me assediado? SÉRIO? Ele realmente acreditava nisso? MESMO? NÃO, o problema não sou eu, senhor, nem o fato de eu ser simpática, nem o fato de ser mulher, de ser gay, de ser negro.

Se você se cala, contribui para que esse tipo de comportamento continue a existir. Mesmo que ache que não vá acontecer nada, como foi meu caso, não permita que qualquer situação de assédio passe despercebida.

7- Faça o que é melhor para você — e não deixe de tentar

O melhor aspecto do ser humano é a diversidade. O mundo ia ser bem mais chato se pensássemos todos iguais — e teria muito menos intrigas no Facebook também.

Nem todos se adaptam e conseguem trabalhar sem ter uma rotina. Nem todos acreditam que viver com menos dinheiro será satisfatório. Talvez você deva mesmo fazer aquele concurso se esse é o seu sonho. Talvez você deva continuar no seu emprego se você o ama. Não importa, se você acha que está trilhando o caminho certo, continue nele.

Mas, se pensa que está seguindo o caminho errado, não tenha medo de tentar, não deixe de buscar algo diferente. Afinal, se não tentar, nunca saberá se daria certo, não é?!

No final das contas você perceberá que vale muito mais a pena tentar e falhar, por mais clichê que isso soe, do que ficar parado pensando que se tivesse feito algo as coisas poderiam estar diferentes.

Faça o que é melhor para você! Ninguém mais vive sua vida, então seja um pouco egoísta e pense em si — nem que seja por um momento.

O que você quer fazer?

 

  • Amanda M. Gouveia Fernandes

    Você arrasa nos textos!!! Parabéns!!!