Nosso ego e a necessidade de criticar

Durante muito tempo eu critiquei e reclamei muito — sobre tudo. Criticava as pessoas que passavam por mim na rua, criticava conhecidos, criticava para ter assunto — eu era uma verdadeira idiota. Hoje eu olho pra trás e sinto tenho vergonha.

Na verdade, tive dúvidas se começaria o texto fazendo essa confissão. Mas é verdade, eu preciso assumir como eu era imbecil para dizer que mudei.

Não sei dizer muito bem quando a mudança começou, mas sei que se fortaleceu durante minhas sessões de terapia. Certo dia eu falei à minha psicóloga que eu julgava as pessoas que faziam isso ou aquilo e ela me perguntou: “Por que?”. Eu pensei, pensei, e a única hipótese que apareceu na minha cabeça foi: “Porque eu tenho vergonha disso, porque eu acho idiota fazer isso”.

Depois deste episódio eu compreendi que a crítica nasce em nós mesmos, que o julgamento a nosso respeito e a respeito dos outros está enraizado em mim, em você. Esta descoberta me incomodou tanto que me fez mudar hábitos e querer descobrir mais e mais sobre mim para que eu pudesse mudar algo a este respeito.

Coincidentemente, há alguns meses, quando comecei a ler “Criatividade” do Osho, não tinha ideia de que seria este livro que despertaria ainda mais minha noção sobre ego, críticas e autoconhecimento. Eu me descobri, me compreendi e busquei mudanças importantes em minha vida desde então. Eu evoluí e este foi um passo importante para eliminar minha necessidade de criticar e me ajudar a crescer como ser humano.

Você critica porque não é aquilo que gostaria de ser, você critica para ser “mais

Sei que muito do meu julgamento, do meu preconceito, das minhas vergonhas e sentimentos negativos vinham de mim. Eu não gostar de alguém que é espontâneo? É porque eu não conseguia ser, porque eu tinha vergonha de ser. Eu via uma frustração pessoal no outro e isto me fazia odiá-lo.

No meu primeiro texto publicado aqui no LinkedIn alguém me disse, basicamente, que eu deveria ficar quieta porque não teria mais oportunidades se não conseguisse mais ser freelancer depois do que tinha dito (que não era nada demais). Eu fui amaldiçoada por falar o que esta pessoa queria dizer mas não teve coragem.

Você fala de quem largou tudo para seguir seus sonhos quando tudo que você queria era fazer o mesmo. Você fala de alguém que é rico porque tudo que você queria era ter muito dinheiro. Você deseja algo que não conseguiu, que não tentou, e então você escolhe encontrar defeitos em alguém que é o que você gostaria de ser e sentir-se melhor sobre si mesmo.

Quantas vezes você já não leu comentários de ódio na internet? Certa vez eu fiquei triste e chocada quando li comentários sobre a aparência de uma blogueira no seu próprio Instagram. Isso me levou a pensar: o que alguém tem a ganhar falando isso para ela? Por que?

Depois de pensar muito só uma resposta parecia correta. Alguém que faz este tipo de crítica só pode estar querendo sentir-se superior — mas sentir-se superior sem ter que subir; apenas colocando o outro para baixo. Alguém que costuma tecer este tipo de comentários só pode sentir-se tão inferior, tão baixo, que precisa levar os outros para baixo para que possa sentir-se bom ou melhor do que o outro.

A lógica é: Ela é mais rica do que eu, viaja tanto, tem tantas roupas bonitas, mas pelo menos eu sou mais bonita do que ela. Agora lembre-se de quantas vezes você já fez um comentário sobre alguém somente para sentir-se superior. Não estou falando apenas de aparência, mas tudo, inclusive daquelas vezes que você falou para o seu chefe que o colega chegou atrasado apenas para mostrar que você é melhor porque chegou no horário, apesar de ele trabalhar tanto quanto você. Das vezes que você tentou impedir alguém de fazer algo melhor para não parecer que você não fez nada de bom até agora.

Parece que temos uma necessidade incontrolável de colocar a nós mesmos num pedestal, afinal somos tão perfeitos, tão melhores do que os outros, não somos? Mas não podemos fazer isso afirmando as qualidades que temos. Não podemos mostrar aos outros o quanto somos bons. Temos que fingir o tempo todo que não temos defeitos, ou pelo menos não temos tantos defeitos quanto este ou aquele. Na verdade, muitas vezes, apenas queremos parecer melhores do que alguém sem precisar nos mexer. Nós só queremos ser os melhores — e é aí onde nosso ego entra.

Seu ego é o principal culpado

O “ego”, como Osho chama, é o culpado por todos estes comportamentos. Nós queremos nos sentir melhores, nós queremos ser importantes e é o ego quem acaba com tudo, fazendo justamente o contrário. Na busca incessante pela perfeição acabamos destruindo qualquer chance de perfeição. O excesso de preocupação com aparências e com o que os outros pensarão sobre nós nos tornam robôs. Nós focamos no que nosso ego quer: ser admirado, ser amado, ser importante. É aí que está o problema.

Não seremos felizes a nosso respeito buscando a aprovação dos outros ou encontrando defeito no próximo, mas sim encontrando as coisas boas dentro de nós. Não precisamos fazer alguém sentir-se uma bosta para nos sentirmos maravilhosos. Não precisamos tornar alguém incompleto e infeliz para nos sentirmos completos e felizes. Na verdade, sentir-se feliz pelo outro e admirá-lo pode nos deixar ainda mais felizes.

Por que não podemos, simplesmente, ser incríveis juntos? Me parece que somente alguém descontente consigo irá criticar alguém, julgar e prejudicar. Se você é feliz consigo não há espaço para negatividade, para críticas e julgamentos. Você transborda boas energias e a compartilha com os outros. Você consegue admirar alguém e aprender com o outro. Você consegue sentir alegria por si e pelos outros. Você pode simplesmente ficar em silêncio quando não tem algo de bom a acrescentar; e apenas semear coisas boas alegrando sua vida e a do próximo.

Se você não tem nada para acrescentar, cale-se

Portanto, quando você sente-se feliz e completo, não precisa criticar ninguém. Quando sua vida é boa o suficiente, você não tem a necessidade de falar mal de algo ou alguém. Você pode compartilhar coisas boas a seu respeito. Você sente-se livre até mesmo para compartilhar seus próprios problemas, ao invés de focar nos problemas alheios. Você também pode apenas ficar quieto e ouvir e contemplar a beleza do que está vivendo.

Quando você não sente-se desta forma, quando não sente-se completo e feliz em sua própria pele, o que resta é falar, criticar os demais. Certo dia li um trecho do livro onde Osho falava que não conseguíamos ficar quietos, que muitas vezes criticávamos apenas para ter o que falar. Neste mesmo dia eu tinha um almoço em família. Lá, decidi colocar em prática o que ele falava, ficar em silêncio se não tivesse nada de bom a acrescentar; e apenas observar.

Eu fiquei em silêncio durante quase todo o almoço. Sendo sincera, mais de 90% dos assuntos foram comentários desagradáveis sobre algo ou alguém. Pessoas que não estavam presentes, pessoas que estavam à mesa, tudo. Críticas e mais críticas que faziam qual bem mesmo? “Vocês viram o que a fulana falou no Facebook?” ou “E a fulana e o ciclano que não tem dinheiro e ainda vão fazer uma festa enorme?” ou “Viu como ela engordou?”. Aquilo me fez sentir completamente deslocada e inquieta.

Porque insistimos em criticar? Porque temos e cultivamos este hábito tão nojento? Estamos nós, constantemente, tentando rebaixar alguém apenas para nos sentirmos superiores? Estamos nós sentindo-nos tão inferiores e inseguros que precisamos apontar o dedo para o outro? Ou simplesmente não podemos falar de coisas boas? Não sabemos ficar felizes por alguém ou pelo que temos em nossas vidas?

“O ego só pode existir na miséria e através da miséria. O ego é uma ilha cercada pelo inferno. A felicidade está ameaçando a existência do ego. A felicidade ergue-se como um sol e o ego desaparece, evapora como uma gota de orvalho sobre a folha de grama.” – Osho

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O ego engana, o ego nos faz odiar, o ego nos impede de ir em frente e de incentivar que o outro siga em frente. O ego impede à nós e aos outros de crescermos como pessoas. O ego só está preocupado em ser melhor, em parecer melhor perante o outro.

Se nós apenas entendêssemos que não precisamos fazer ninguém sentir-se inferior para nos sentirmos superiores… Se nós ao menos compreendêssemos que não precisamos nos sentir superiores à alguém. Entenda, ninguém encontrará a felicidade fora de si, muito menos na desgraça dos outros. A felicidade está dentro de nós mesmos. Nós precisamos nos encontrar e compreender que não precisamos ser melhores do que ninguém para nos sentirmos bem e que crítica nenhuma poderá nos atingir uma vez que estivermos em paz com quem somos.

Uma vez que tivermos compreendido isso, uma vez que entendermos que não devemos nos ocupar tentando ser melhores do que alguém, tudo ganha um novo sentido e você entra em uma jornada em busca de conhecimento e crescimento pessoal, onde não é necessário criticar e analisar o comportamento alheio. Você se sentirá tão completo que poderá simplesmente contemplar a beleza do momento, de sua vida. Você compreenderá que todos são diferentes, tiveram vidas diferentes e que, por isso não temos o direito de criticarmos quem quer que seja.

Afinal, o mundo já passou por tanta coisa ruim. Há tanto ódio, tantas guerras, tanta criminalidade. Você acha mesmo que precisamos espalhar mais sentimentos negativos por aí?